entrevistas

segunda-feira, meia noite, estou eu no youtube como quem não quer nada após assistir meu filminho diário — o escolhido tinha sido chambre 666 — quando me deparo com uma entrevista da clarice lispector que eu já tinha começado a assistir várias vezes mas nunca terminado. agora eu terminei e não consigo dormir.

o bom de eu ter postergado tanto pra assistir a entrevista é que chambre 666, fresquinho na memória, me obrigou a fazer conexões entre o filme e as falas da clarice, já que o filme mesmo são só várias entrevistas reunidas. chambre 666 tem como abertura o depoimento do godard, em que ele questiona se o cinema é uma arte defunta, e se a obra dele vai morrer com ele também. corta pra clarice lispector dizendo que renasce e se renova a cada trabalho novo, mas que naquele momento ela estava morta, apesar de esperar renascer. ai, que tristeza.

alguém me contou nos comentários que ela descobriria o câncer logo depois daquela entrevista, não sei se é verdade, mas me doeu tanto. o conto que abre “durante aquele estranho chá”, da lygia fagundes telles, é justamente sobre quando ela descobre que a clarice havia partido, e eu só consegui pensar nele enquanto assistia a entrevista, gravada no mesmo ano em que ela morreu. quando eu tinha 13 ou 14 anos achava tanta besteira os jovens tristes porque alguém que nasceu em 1900 e nada tinha morrido também em 1900 e nada, afinal eles nem tinham de fato vivido aquilo, mas agora acho que entendo um pouco da agonia que é isso.

voltando a chambre 666, um dos depoimentos é do rainer werner fassbinder, e apesar de ele não falar muito nessa ocasião, também fiquei extremamente agoniada já que ele morreu menos de um mês depois da gravação, no festival de cannes de 82. não tenho um carinho tão grande pelo Fassbinder como tenho pela clarice, mas ele era um dos grandes amigos do wim wenders, diretor do filme e que trabalhou com aquela entrevista quando o fassbinder já tinha morrido. enfim, só de pensar nessa situação já me sinto sufocada, a questão não é nem o Fassbinder, mas sim alguém que estava lá, falando, trabalhando, existindo, simplesmente não estar mais. logicamente não é um conceito absurdo, mas pensar sobre isso e seus desdobramentos…? me deixa doida.

como está tudo interligado, o fassbinder era um dos cineastas favoritos do caio fernando abreu, amigo e admirador da clarice (e da lygia!), e quem eu também queria que ainda estivesse por aqui. clarice, caio e lygia provavelmente são os responsáveis por eu ter voltado a ler com gosto, antes tudo parecia tão sem graça. entretanto, esse é o problema, agora tudo que eu penso é que nada será tão bom quando clarice, caio e lygia, que tristeza. ainda bem que a obra da clarice e do caio continua mais viva do que nunca, me dando ao luxo de opinar no questionamento do cineasta ali do primeiro parágrafo. fico feliz por de fato ter lido os livros deles e ter superado o medo de que fossem fossem só clichês do tumblr, aquela rede social me paga!!!!

onde eu quero chegar com isso? não faço ideia, apenas pensamentos aleatórios de quem vê mais filmes do que deveria.

p.s: escrevi isso em algum momento de 2020, mas vou deixar aqui porque… por que não?

comentário da paola de 2021, pós tetralogia napolitana: talvez a elena ferrante tenha me conquistado tanto quanto clarice, caio e lygia, 1bj elena ferrante.

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